segunda-feira, 4 de abril de 2011
domingo, 3 de abril de 2011
TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR À GRAÇA


Parece mesmo que sim. Foram os eremitas do alto da Senhora do Monte que fundaram depois o mosteiro. Foram os cruzados que vieram ajudar Afonso Henriques a tomar Lisboa aos mouros. Foram os sobreviventes do terramoto que aqui quiseram recomeçar a vida, longe dos maus ares. Foram as multidões de rurais que buscaram trabalho na indústria. São os que procuram um lugar arejado e limpo onde viver, com calma, na capital. Fui eu. Deve ser a atracção dos lugares altos.
Tomei o 28, incontornável no seu percurso e fui subindo, por vezes por ruas tão apertadas que apenas passa um carro e pouca luz. O eléctrico atestado, como sempre. Conversas em várias línguas. Expressões faciais contrastantes, de quem está em férias ou resignado com a vida. Saí e segui na direcção de um portal acastelado que vi ser o quartel da GNR, reocupação do convento agostinho da Graça. O lugar cresceu pelas ruas que, vindas de baixo, o serviam: Rua da Graça, Rua do Sol, ...e subiu pela Rua da Senhora do Monte até encontrar o céu. Talvez por isso se fez um jardim em cada terraço conquistado à encosta e se vivem as praças como se fossem quintais. A igreja e o convento polarizaram o bairro. Expulsos os frades, instalaram-se militares. Com a simplicidade de um fado que se cumpre, palácios e antigas dependências monásticas foram ocupados por habitantes sem pergaminhos, muitos com pouco, alguns com muito dinheiro. O suficiente para assegurar a continuidade do sítio que agora se descobre com prazer.
Brilhantes de azulejo, inesperadamente agradáveis, muitos são os exemplares de uma arquitectura de pátios e vilas de rendimento dos finais do XIX e inícios do XX. No fim da rua, sob a data de 1890, a Villa Sousa atrai o olhar, palácio de condes tornado residência de operários que vinham de trabalhar em baixo, nos conventos de Chelas, Xabregas e do Beato tornados fábricas. Entro no pátio onde antigas carruagens entraram para virar e encontro uma irrealidade que se entranha. Olham para mim quatro paredes de janelas que velam o interior de quatro pisos de casas. Aceno a uma senhora que corresponde, contente e saio, a custo. Dirijo-me à Igreja, encaixada no miradouro que os monges deixaram aberto sobre a cidade, antecipando o barroquismo da história. A extensão da paisagem recorda-me a cidade que parece estar longe, escondida sob os telhados.
Um ex morador saudoso guia-me pelos ex libris da Graça, estas vilas operárias do início do século, que me encantam pela requalificação limpa e pela sobriedade estética. Choca pensar que estes sítios, onde hoje se gostaria de viver, foram palco de vidas tão difíceis que a função dos pátios era esconder a miséria dos olhares da rua. A Vila Berta, por exemplo, não era antes habitada por uma D. Leonilde que, em conversa pacata com a vizinha de cima, passeia um cão obeso e indiferente aos gatos que miam. Ela mesma explica que só percebeu a existência do pátio quando o veio habitar e que ainda é habitado por descendentes de operários e propriedade de descendentes dos patrões. O moderno Bairro Estrela de Ouro, nome da indústria de confeitaria de Agapito da Serra Fernandes, representa a excepção do sucesso galego na Lisboa de então, excepção que Agapito não quis deixar de assinalar com múltiplas estrelas nos mais inusitados sítios e painéis de azulejo coloridos dos méritos do seu patrono.

Subi então a mais alta colina de Lisboa, até ao luminoso miradouro da Senhora do Monte, capela simples de gente simples e variada, como o sítio. Mas foi ao descer, de novo em direcção à principal rua da Graça, que o coração embalado pela magia da tarde saltou: pasmei com um monumental cinema tornado supermercado, a mesma estrela laureada em ouro pontuando a entrada. Soube depois que, sob o patrocínio da Estrela de Ouro, aí se exibiu o primeiro filme sonoro do país. Sucessos passado e contrastes presentes que persistem no quotidiano da Graça.
Preparada para seguir os carris até ao eléctrico, deparei ainda com a Tasca do Jaime, genuína sede do Grupo Excursionista e de Dominó da Graça, outra expressão galega das gentes que aqui vieram dar. Casa de piso térreo no lado oposto da rua, vi-a porque um grupo heterogéneo de gente transbordava do estreito passeio, em riscos de ser atropelado pelo trânsito. Notas sonoras e sofridas saíam do interior, seguidas de palmas e gritos de “Ah grande!!”. Copo de branco na mão, roupa preta no corpo, pálpebras semicerradas que deixam transparecer o azul estrábico do olhar, a D. Dália explica-me que o fado vadio é cantado por não profissionais, aqueles que não sendo grandes, aprendem a “dar os tons”. Casa cheia, de expressões matreiras no canto dos lábios e de ERASMUS, turistas ou saudosos dos tempos em que se afogavam as mágoas a cantar. Entra-se e sai-se a custo como a pouca luz. Como na Graça, onde os caminhos de todos parecem ter deixado ficar um tempo que não parou e um ar que se respira até quase se poder tocar. Talvez por isso se volte sempre.
Regresso a casa ainda com imagens de telhados, pátios, varandas, praças, largos e quintais na retina e ocorre-me que o final do filme pudessem ser uns olhos doces de cão ao som de fado vadio, no écran do antigo cinema, entre as couves, o talho, a peixaria e a caixa registadora do supermercado da Graça.
sábado, 2 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
POISSON D'AVRIL
Notícias não confirmadas dizem que Vale e Azevedo aterrou em Figo Maduro e virá salvar as finanças da nossa terrinha.
Confirma-se que somos uma plataforma de viajantes!
quinta-feira, 31 de março de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
DOUTOR LULA DA SILVA
Parabéns Doutor Lula da Silva.
Fotografia de As Beiras
CULTO DA TATUAGEM
Reuters


















