sábado, 30 de agosto de 2008

OS ÓCULOS DO POETA


O cara se aproximou da estátua e começou a desparafusar, puxar e bater para arrancar os óculos do poeta, quando ouviu um grito de dor. Ficou paralisado, olhando para o rosto de bronze sem acreditar no que ouvia. Até que conseguiu falar:

- O senhor disse alguma coisa?

E o poeta respondeu:

- Eu gritei porque estava doendo. Se você for mais jeitoso eu te ensino como tirar os meus óculos sem me machucar.

- Mas como, estátuas não sentem, não podem sentir nada, são de metal!

- Nem podem falar, mas eu falo. E sinto uma dor enorme quando não me tratam com o carinho que os poetas merecem. Pode levar os meus óculos, enxergo sem eles. Aproveite para dizer ao prefeito canastrão que não precisa me dar outro. É melhor distribuir a verba aos pobres ou colocar uns brinquedos para as crianças. Você nunca conversou com um poeta?

- Assim famoso como o senhor, nunca. Só com um porteiro ali da Constante, que faz uns forrós com sanfona e tudo. Ele diz que era poeta lá no norte e vendia livrinhos de cordel. Vivia bem, tinha bicicleta e uma rocinha. Mas de repente, o povo parou de comprar. Até os turistas num quiseram mais saber de cordel. Aí veio tentar a vida por aqui, não voltou mais. Mas o que é que eu estou fazendo? Falando com estátua! O que vão pensar? Vão me levar pro hospício! Se a copabacana passar agora por aqui eu to perdido!

- Fica tranqüilo, eles só passam quando não tem ninguém... São seis e cinco da matina, não é? Daqui a pouco vem um senhor que passa correndo e me cumprimenta. Passa tão concentrado no exercício que nem escuta minha resposta.

- E o senhor queria o que? Estátua não fala. NÃO FALA! N-ã-o-f-a-l-a!

- Eu vejo tudo o que acontece por aqui. Escuto os beijos dos namorados, os gritos dos assaltados, os palavrões dos motoristas. É como se eu trabalhasse o dia inteiro, 24 horas sem parar, que nem os relógios. E os poetas. Eu falo com todo mundo, mas ninguém escuta. Só os que vem pegar os meus óculos. Teve um que me disse que já tinha até uma encomenda num hotel. Traficante de óculos de poeta. Nova profissão... Você é novo na área...

- Não sou traficante de coisa nenhuma! Quero só levar de lembrança pra minha avó, que veio de Minas...

- Aquela senhora que sentou no meu colo ontem? Deixou meu rosto cheio de marcas de batom!

- Que história é essa, ô poeta? Que cara de pau! Quer dizer, de bronze! Olha o respeito com a minha vó! E vou logo tirando esse treco que daqui a pouco começa a encher de gente por aqui...

- Faz um favor pra mim? Faz um movimento para me virarem de frente pro mar. Já estou cansado de ver essa cidade sendo maltratada, esse povo sendo enganado, essas crianças exploradas nos sinais, as prostitutinhas mirins, os aprendizes de assaltantes... Queria ficar virado pro mar, já que não freqüentei muitos bares como o Pessoa...

- Fica quieto agora, se não, vai doer! Rapidinho eu tiro e vou embora. E pode deixar, eu vou procurar um vereador amigo meu que vai fazer uma lei prá virar você pro mar. Vai faturar uma graninha com a obra, ta precisando se reeleger... Ta querendo ver a mulherada de biquíni, não é? Fala sério!

- Não, só quero conversar com as sereias... Assoviar pros golfinhos... Ver chegar a estação dos navios gigantes... Passei a vida olhando a cidade fervendo, as pessoas correndo, o tempo voando. Agora não preciso mais observar as pessoas jogando sua vida fora. Quer saber de uma coisa, tira logo os meus óculos, mas com cuidado, por favor. Leve com um beijo pra sua avó mineira, feito eu. Meu corpo foi feito duas vezes com matéria prima de Minas Gerais. E quero viver a eternidade como todo mineiro: com saudade de sua terra, mas olhando pro mar!

2 comentários:

Lilás disse...

Ah, que delícia de texto!
E o poetinha, coitado!
Deve estar mesmo se revirando lá no túmulo com o que vê nesta cidade, purgatório da beleza e do caos!
grande abraço carioca

Anónimo disse...

Interessante e belo texto.
Não restam dúvidas (a prova está aí): a criatividade não tem limites!

mc