quinta-feira, 28 de agosto de 2008

UMA IRRESISTÍVEL VOCAÇÃO PARA A ALEGRIA


Como bom mineiro,sou carioca;como bom carioca,sou mineiro.De qualquer maneira que o diga,não importa a ordem,tenho absoluta isenção para ser um fanático pelo Rio de Janeiro,se o fanatismo pudesse ser isento.Aliás,não se conhece quem ame mais ou menos o Rio.Pode até não gostar,mas se gostar,adora,sem meio-termo.A poetisa americana Elizabeth Bishop,por exemplo,odiou quando em 1951 desceu aqui para uma rápida escala:"É tudo desleixado,corrompido.O Rio me deprime.Como é que eles conseguem viver aqui?".Foi ficando,ficando,ficou por quinze anos e acabou confessando que a cidade lhe salvou a vida.
A maioria dos forasteiros nem demorou a se apaixonar,o amor foi à primeira vista.Desde pequena,a cidade se acostumou a elogios.Era ainda uma criança quando um dos seus amantes,o todo-poderoso governador-geral Tomé de Sousa,escreveu:"Tudo é graça o que dela se pode dizer".Até os religiosos guardaram para ela olhares profanos."É a mais airosa e amena baía que há em todo o Brasil",suspirou o padre Anchieta,inteiramente catequizado pela beleza do lugar.Pouco depois,seu colega da Companhia de Jesus,o padre Fernão Cardim,sentiu quase o mesmo:"É coisa fermosíssima e a mais aprazível que há em todo o Brasil".
E tantos e tanto cantaram sua formosura que ela terminou por se tornar vaidosa e narcisista,reforçando sua auto-estima com os elogios alheios que aos poucos foi incorporando à sua natureza. A Cidade Maravilhosa cheia de encantos mil é o que é,mas também o que parece ser em prosa e verso,através do olhar da sedução e da linguagem da paixão.Não importa que o nome da cidade seja masculino;a ela se atribuem virtudes e vícios femininos,num processo de animismo que tenta transformar em gente esse animadíssimo ser inanimado.Diz-se que ela é voluptuosa,encantadora,luxuriante,sexy,atraente,sedutora.Fala-se de sua fauna e sua flora,de suas serras e enseadas,como se fala de um objeto de desejo.
A exemplo das curvas e linhas das mulheres cariocas,os acidentes físicos do Rio também estão carregados de sugestões eróticas.Há matas virgens,contornos sensuais,cavidades sinuosas.A baía não é apenas uma bela entrada geográfica,mas uma evocação metafórica de ventre e útero,convidando,com suas sendas,reentrâncias e depressões profundas,viajantes e peregrinos à penetração e ao gozo - todos os amantes a caminho da perdição dos sentidos."Esta bela mulher não precisa de jóias nem de seda;precisa,antes de tudo,de ser limpa.Para nossa vergonha e nossa tristeza,ela é,antes de tudo,suja",escreveu Rubem Braga,um dos seus mais ternos enamorados,num momento de irritação pela falta de asseio da amada - uma irritação,no entanto,passageira,coisas do amor.
Por fervor de seus amantes e por merecimento próprio,ela foi criada para ser musa.Solar,sensual e espetacular,sempre exibiu com raro despudor suas formas e cores.Fez graça para Debret,fez pose para Rugendas e se desmanchou diante das lentes de Augusto Stahl,Augusto Malta ou Marc Ferrez.Tentou a todos os que carregavam um cavalete ou um tripé,uma máquina ou uma câmera.Poucos espaços físicos exerceram tanto fascínio e excitaram tão ardentemente o olhar de pintores e cronistas,poetas e seresteiros,daqui e de fora.
Vinicius de Moraes dizia que ser carioca é um estado de espírito.Talvez seja mais,pois não se trata apenas de alma,mas de corpo e alma.Ama-se essa cidade com todos os sentidos,a começar pelos olhos.É toda sensorial.O primeiro alumbramento é evidentemente visual.E depois é também sonoro e tátil,sobretudo tátil,coisa de pele.Olha que coisa mais linda uma garota de Ipanema ou de Copacabana num doce balanço a caminho do mar.Ela vai se molhar e então se estender na areia para secar e dourar ainda mais o seu corpo dourado e quase nu.Essa relação com a água,com a areia e com o sol é um rito hedonista,quase erótico.
Segundo Tom Jobim,que deu som a tudo isso,herdamos dos nossos antepassados tamoios o gosto pela água,pelo mato,pela música e pela dança.Onde mais ele poderia ter nascido?Onde poderiam ter surgido a tanga e o fio-dental,senão no espaço ideal para a prática do "carpe diem"?Sentar-se numa cadeira de praia e observar o ritual dos novos tamoios brincando com o mar,ouvir as conversas dos jovens,ver os gestos,as aproximações,os namoros,os encontros e desencontros são só por si um divertido programa,barato e democrático.Mas existem outros.Ao contrário de Salvador,que é histórica (até o H da Bahia é do passado),o Rio é mais geográfico.O que tem de mais bonito não foi criado pelo homem.Seus lugares de passeio,suas atrações turísticas em geral fazem parte da natureza:Pão de Açúcar,Corcovado,as praias de Copacabana,Ipanema,Leblon,Aterro do Flamengo,Quinta da Boa Vista e Floresta da Tijuca.
É significativo que uma cidade maravilhosa,que gosta de misturar o sagrado e o profano,tenha como protetor o Cristo de braços abertos e como padroeiro são Sebastião crivado de flechas,um santo zen resistindo triunfalmente ao suplício.Os dois compõem um discurso visual que expressa dois estados comuns ao carioca:a generosidade proposta por um e a serenidade demonstrada pelo outro perante a adversidade.Eles têm de fato tudo a ver com essa terra ao mesmo tempo alegre e sofrida.Um é a instância máxima da redenção;o outro,mais próximo,serve de intercessor e exemplo,com seu jovem e belo corpo quase sempre despido,assim como costumam andar os cariocas.
Às vezes paraíso,às vezes inferno,mais provavelmente "purgatório da beleza e do caos",conforme cantou Fernanda Abreu,o Rio vive recorrendo a esses dois fortes protetores.Sem hipocrisia,expõe suas belezas com a mesma franqueza com que deixa ver suas chagas,disfarçando a dor e desdematrizando o sofrimento.Como sabem todos os seus cronistas,de ontem e de hoje,o Rio tem a alegria como sua irresistível vocação.

Texto de ZUENIR VENTURA (escritor e jornalista)

2 comentários:

Gerson Deslandes disse...

ZUENIR É CRAQUE! GRANDE SACADA!

Lilás disse...

Adoro Zuenir!
Conheci-o nas aulinhas do pré-vestibular, onde a galera só ficava atenta às aulas de literatura, quando tinha texto dele.
Bom demais!
abraço carioca