domingo, 5 de outubro de 2008

ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL





Falar do Brasil é conservarmo-nos ainda no seio da família portuguesa.As instituições políticas valem menos do que os vínculos de consanguinidade.
Falemos do Brasil portanto,para celebrar o acto corajosamente radical que a nação neo-portuguesa da América acaba de praticar abolindo a escravidão.
Entre as cousas meritórias que os séculos vindouros celebrarão no nosso,tem o primeiro lugar esta faculdade de obedecermos a ideas puramente abstractas,com a consciência de que o são.O platonismo humanitário,ainda nas suas aberrações,é a coroa de glória do século dezanove - coroa que vai embaciando,flor que dia a dia vai murchando,é verdade,pendida sôbre a sua haste aereamente orgulhosa.
Somos cada dia mais vulgares,por isso mesmo que somos mais positivos e práticos.É que a realidade das cousas amesquinha a gente,quando não provoca a misantropia,ou o sarcasmo,mais aflitivo ainda.
Felizes os povos que podem num dia,emitindo um voto,dar a mais de um milhão de homens a qualidade de sêres nossos iguais!
Era o Brasil o único país civilizado que ainda em suas leis conservava a escravidão;e é talvez ao Brasil que mais custará do que a ninguém a abolição do regime do trabalho servil.
Não cabe aqui discutir se a abolição radical é económica e pràticamente preferível ao sistema vigente que extinguiria gradualmente a escravidão dentro de quatro anos.Demos que a abolição imediata seja mais inconveniente.
Isso provaria apenas que o Brasil é capaz de obedecer ao fanatismo de uma idea nobre,sacrificando-lhe interêsses vivos,embora êsse fanatismo se alimente,como sucede sempre,de uma ilusão generosa e boa.Antes isso;porque mais valem as ilusões sinceras que levam um povo atrás de uma miragem,como os judeus de Moysés quando os guiava a sarça ardente no deserto,do que a agitação estéril em volta dessas cousinhas sujinhas e mesquinhas que já há dois séculos provocavam a sátira célebre do nosso Garcia de Rezende.
Num caso sempre fica alguma cousa.A ilusão dissipa-se,mas resta a consciência de um acto generoso - o que não importa menos para os povos do que para os homens,pois da soma dessas reminiscências é que se forma o orgulho de um povo,a sua tradição histórica e a sua consciência colectiva,de todas as fôrças a mais indomável.
No outro caso nada fica,porque,dissipada a ilusão das vaidades chôchas,resta apenas aquela apagada e vil tristeza de que falava Camões,com grave escândalo e constante mofa da gente dura e ensurdecida que não queria ouvi-lo.

De Oliveira Martins,in Repórter(15-V-88)
In DISPERSOS,recolha de António Sérgio(Publicações da Biblioteca Nacional,Lisboa,1924)

2 comentários:

Lilás/Beth disse...

Ao amigo, desejo uma ótima semaninha.

Vi tantas fotos lindas de Lisboa que meu marido fez que vou começar a sonhar em morar aí um dia. Dizem que sonhar é bom, né! Então....
abaço carioca

Eduardo Marculino disse...

Parabens pelo Blog...
um abraço